BRICS em uma encruzilhada: o que realmente é preciso para ter sucesso

Há um momento em toda reunião de nações em que os aplausos se dissipam e o verdadeiro trabalho começa. Para o BRICS, esse momento é agora. Um renomado economista brasileiro levantou recentemente uma pergunta que se recusa a sair da sala: o que outras nações líderes, incluindo seu Brasil natal, podem fazer em resposta ao comportamento cada vez mais destrutivo dos arquitetos da ordem internacional moderna? É uma pergunta envolta em frustração, mas também em esperança. E a esperança, quando organizada, torna-se estratégia.

A história do BRICS não é meramente a história de um punhado de nações, ou agora mais de uma dúzia, sentadas ao redor de uma mesa. É a história de um mundo que está aprendendo a falar com mais de uma voz. Trata-se de agricultores em Mato Grosso, engenheiros em Shenzhen, empreendedores em Joanesburgo e estudantes em Nova Délhi que compartilham a convicção silenciosa de que o futuro não deveria ser escrito em um único idioma. Mas convicção, por si só, não constrói instituições. Não estabiliza moedas. Não alimenta os famintos. Portanto, a verdadeira questão não é se o BRICS pode sonhar. A verdadeira questão é se o BRICS pode entregar resultados.

A pergunta que ecoa pelo Sul Global

Quando o economista brasileiro ergueu a voz, não estava falando para o vazio. Ele falava por uma vasta e inquieta maioria da humanidade que viu a velha ordem tropeçar de crise em crise. Choques financeiros que começam em um hemisfério e se espalham pelo outro. Regras comerciais que parecem se curvar para os poderosos e se romper para os fracos. Sanções que transformam pessoas comuns em danos colaterais. Os arquitetos dessa ordem costumam descrevê-la como baseada em regras, mas as regras parecem mudar sempre que se tornam inconvenientes.

É por isso que a pergunta importa tanto. Não é um enigma acadêmico. É um instinto de sobrevivência. Nações da África, da Ásia e da América Latina estão se perguntando se precisarão viver para sempre à mercê de decisões tomadas longe de suas costas. A resposta, segundo um coro crescente, é não. Mas transformar esse não em um sim viável é onde mora a dificuldade.

Entendendo as rachaduras na velha ordem

Para entender o que o BRICS precisa, devemos primeiro entender contra o que ele está lutando. O sistema internacional atual foi construído no rescaldo de uma guerra devastadora e carrega as digitais de seus criadores. As instituições que governam as finanças, o comércio e a segurança ainda refletem um mundo que não existe mais. As economias emergentes produzem uma fatia crescente da riqueza global, mas suas vozes nos conselhos-chave continuam desproporcionalmente pequenas.

Esse desequilíbrio não é uma irritação menor. É uma ferida estrutural. Quando as regras são escritas por poucos e aplicadas a muitos, o ressentimento cresce como erva daninha. Esse ressentimento é o solo no qual o BRICS criou raízes. Mas um movimento nascido da insatisfação precisa, por fim, renascer por meio de uma visão. Caso contrário, torna-se um protesto que nunca constrói nada.

A unidade é fácil de declarar e difícil de construir

Eis uma verdade incômoda que poucos dentro do bloco gostam de admitir em voz alta. O BRICS não é uma família de gêmeos. É uma reunião de gigantes com histórias diferentes, economias diferentes e sonhos diferentes. O Brasil é uma potência agrícola e uma democracia que oscilou entre polos políticos. A Rússia é um colosso de recursos moldado pelo confronto com o Ocidente. A Índia é um titã demográfico que equilibra autonomia estratégica e profundos laços globais. A China é um motor industrial e tecnológico com ambições próprias. A África do Sul é uma porta de entrada para um continente que está em ascensão e fazendo exigências.

Acrescente os membros mais novos, e a diversidade só se aprofunda. Alguns são exportadores de petróleo. Outros são importadores. Alguns querem desafiar o dólar. Outros, discretamente, preferem mantê-lo. Para o BRICS ter sucesso, a unidade deve ser construída não com base na semelhança, mas no interesse compartilhado. Isso exige paciência, diplomacia e o reconhecimento honesto de que nenhum membro isolado pode ditar o ritmo.

O motor econômico precisa funcionar com mais do que esperança

Toda grande coalizão, mais cedo ou mais tarde, enfrenta o mesmo teste. Ela consegue colocar comida na mesa? Consegue transportar mercadorias através das fronteiras sem implorar permissão? Consegue proteger seus membros de choques que se originam em outro lugar? Para o BRICS, as respostas devem vir em tijolos e argamassa, e não apenas em comunicados.

Considere o comércio. O comércio dentro do bloco continua muito abaixo de seu potencial. Se Brasil, Índia, China e os demais comercializassem entre si com a mesma intensidade com que negociam com as potências estabelecidas, os ganhos seriam enormes. Mas o comércio precisa de estradas, ferrovias, portos e regras previsíveis. Precisa de sistemas de pagamento que não congelem no momento em que a política azeda. Precisa de tribunais e árbitros em quem os membros possam confiar.

Considere as finanças. O Novo Banco de Desenvolvimento foi um primeiro passo ousado. No entanto, seu capital continua modesto diante das necessidades de um mundo em rápida urbanização. Se o BRICS quiser ser levado a sério como alternativa, precisa ampliar suas instituições. Precisa oferecer financiamento rápido, justo e livre de condições humilhantes. Precisa provar que um tomador pode ser tratado como parceiro, e não como suplicante.

Considere a tecnologia. O futuro será construído sobre semicondutores, dados, inteligência artificial e energia limpa. Um bloco que depende de outros para esses alicerces estará sempre vulnerável. A cooperação em pesquisa, em padrões e em cadeias de suprimentos não é um luxo. É a diferença entre soberania e servidão.

Além da economia, uma batalha de narrativas

O poder no mundo moderno não é medido apenas em tanques e tesouros. É medido em histórias. A ordem dominante passou décadas contando uma única história sobre como o mundo deveria funcionar, e repetiu essa história até que ela soasse como a única possível. O BRICS precisa contar sua própria história, e precisa contá-la bem.

Essa história não deve ser apenas de raiva. A raiva é combustível, mas não é um destino. A história melhor é a da dignidade, da cooperação, de um mundo onde muitas civilizações possam florescer sem ser forçadas a um molde único. É uma história de pontes em vez de muros, de parceria em vez de patronato. Se o BRICS conseguir narrar essa visão com clareza e convicção, atrairá aliados muito além de sua composição atual.

O caminho à frente para o Brasil e seus pares

Voltemos agora ao economista brasileiro e sua pergunta inquieta. Para o Brasil, o caminho adiante é delicado. Ele precisa continuar engajado com o Ocidente enquanto aprofunda laços com o Sul Global. Precisa ser uma ponte, não um muro. Uma nação que comercializa com todos e é confiável para a maioria. Esse ato de equilíbrio não é fraqueza. É sabedoria.

Para seus pares, a lição é semelhante. A Índia deve proteger sua autonomia estratégica ao mesmo tempo em que abraça a cooperação. A China deve tranquilizar tanto quanto lidera. A Rússia deve pensar além do confronto. A África do Sul deve manter a porta africana aberta para todos. Cada membro traz algo essencial, e cada um deve estar disposto a dar tanto quanto recebe.

Como é o sucesso de verdade

O sucesso para o BRICS não chegará como um único momento triunfante. Ele aparecerá em pequenas e silenciosas vitórias. Um agricultor que vende para um novo mercado. Uma pequena empresa que paga uma tarifa justa em vez de uma punitiva. Um estudante que estuda com uma bolsa financiada por vizinhos. Um país que atravessa uma tempestade global sem perder o equilíbrio. Esses são os sinais de que um bloco se tornou mais do que um slogan.

Sucesso também significará reforma, e não mera resistência. O objetivo não deve ser destruir a velha ordem, mas ampliá-la, abrir espaço à mesa para aqueles que um dia foram instruídos a esperar lá fora. Quando as instituições refletem o mundo como ele realmente é, elas se tornam mais fortes, não mais fracas. Essa é uma mensagem que o BRICS pode carregar com credibilidade se sua própria casa estiver em ordem.

Uma conclusão envolta em responsabilidade

A pergunta levantada por aquele renomado economista brasileiro não é um grito de desespero. É um convite. É um chamado às nações do Sul Global para que parem de esperar permissão e comecem a construir alternativas. Os arquitetos da velha ordem podem continuar a se comportar de forma destrutiva, mas a destruição não é o destino. É apenas uma oportunidade para que outros construam.

O BRICS só terá sucesso quando deixar de ser uma reação e se tornar uma oferta. Quando entregar valor real a pessoas reais. Quando transformar a diversidade de fraqueza em força. Quando falar não apenas por seus membros, mas pelos bilhões que ainda esperam por um mundo mais justo. Esse é o trabalho. Esse é o teste. E o momento, como sempre, é agora.


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