O Metalúrgico que Voltou: Lula Vence o Quarto Mandato e o Brasil Prende o Fôlego

Para um homem que passou 580 dias numa cela de prisão federal, a noite de 30 de outubro pareceu algo próximo de um milagre. Luiz Inácio Lula da Silva, o metalúrgico que se tornou presidente e que outrora conduziu o Brasil durante seu mais celebrado boom econômico, estava diante de uma multidão barulhenta em São Paulo e disse a ela que havia feito o impossível duas vezes em uma única vida. Ele havia retornado do exílio político, da condenação criminal, de uma foto de ficha policial estampada em todas as primeiras páginas do país, e o fizera vencendo a presidência do Brasil pela quarta vez. Poucos políticos em qualquer lugar do planeta escreveram um segundo ato tão audacioso quanto este.
“Esta não é a minha vitória”, disse ele à multidão, com a voz rouca por uma campanha que o arrastara por uma nação do tamanho de um continente. “É a vitória do povo brasileiro sobre o negacionismo.” A frase caiu como um veredicto. Durante quatro anos, os brasileiros discutiram sobre fatos básicos, sobre o custo de uma pandemia, sobre a confiabilidade das urnas eletrônicas, sobre se a floresta estava queimando mais rápido do que o governo admitia. Lula prometeu que a discussão havia terminado. As urnas, insistiu ele, haviam falado com uma clareza que nenhuma gritaria poderia abafar.
A própria noite tinha a textura de um carnaval que esperara quatro anos por permissão para começar. Fogos de artifício explodiram sobre Copacabana e ao longo da esplanada de concreto dos ministérios em Brasília. Estranhos se abraçaram na Avenida Paulista. No sertão nordestino, onde a história de Lula começou numa casa de fazenda com chão de terra batida, cidades inteiras se esvaziaram nas ruas. Motoristas buzinaram até as buzinas falharem. Foi uma celebração da aritmética, mas pareceu uma celebração da sobrevivência.
Um Retorno Sem Precedentes
A trajetória da vida de Lula sempre pareceu mais ficção do que biografia política. Ele nasceu o sétimo de oito filhos em Pernambuco e foi carregado, ainda criança de colo, nas costas da mãe ao longo de um leito seco de rio até um caminhão que levou a família para o sul, rumo a São Paulo. Engraxou sapatos, vendeu amendoim, perdeu um dedo em uma prensa de fábrica e subiu no sindicato dos metalúrgicos até liderar greves que abalaram um governo militar. Quando finalmente venceu a presidência em 2002, em sua quarta tentativa, ele o fez como um homem a quem haviam dito a cada passo que seu sotaque, suas roupas e sua escolaridade o desqualificavam.
Seus dois primeiros mandatos tiraram dezenas de milhões de pessoas da pobreza, financiados por um boom de commodities que tornou o Brasil queridinho dos investidores globais e herói do mundo em desenvolvimento. Depois veio a investigação da Lava Jato, uma ampla apuração de corrupção que engolfou boa parte da classe política e, por fim, colocou o próprio Lula atrás das grades. Ele passou 580 dias numa cela em Curitiba, viu seu partido ruir ao redor, enterrou um neto enquanto estava preso e escreveu cartas que apoiadores liam em voz alta em vigílias por todo o país. Em 2021, o Supremo Tribunal Federal anulou suas condenações por motivos processuais, devolvendo-lhe os direitos políticos e, com eles, a possibilidade de retorno.
O que se seguiu foi uma campanha de resistência quase teatral. Ele escolheu um rival centrista de seu próprio passado como companheiro de chapa, um ex-governador chamado Geraldo Alckmin, e construiu uma coalizão tão ampla que ia de ambientalistas a evangélicos conservadores. Prometeu estabilidade aos banqueiros e sopa aos famintos. Caminhou devagar, falou com cuidado e deixou que o contraste com o adversário fizesse boa parte do trabalho. Onde seu rival vociferava, ele sorria. Onde seu rival duvidava das urnas, ele as elogiava.
A Aritmética de uma Nação Dividida
A contagem final foi impiedosa em sua estreiteza. Lula obteve pouco mais de 50,9% dos votos válidos contra 49,1% de Jair Bolsonaro, uma margem de cerca de dois milhões de votos em mais de 124 milhões de votos depositados. Foi a disputa presidencial mais apertada desde que o Brasil voltou à democracia em 1985, e a primeira vez que um presidente em exercício foi derrotado nas urnas sob o sistema atual. O comparecimento foi alto, as filas andaram devagar e, por algumas horas da tarde, o país inteiro pareceu prender o fôlego.
Olhe para além do número nacional e o mapa se divide claramente em dois. Lula varreu o Nordeste, onde sua história de pobreza é tratada como escritura sagrada, e venceu nos estados da Amazônia, além da maior parte do litoral. Bolsonaro dominou o interior, a fronteira agrícola e três estados do Sul. O resultado não é tanto um mandato, mas uma injunção. Metade do país dançou, metade do país chorou, e as duas metades agora precisam compartilhar um único orçamento, uma única moeda e um único conjunto de instituições.
Bolsonaro se Recusa a Reconhecer a Derrota
Durante dois dias após a homologação do resultado, Bolsonaro não disse nada. Nenhuma ligação de reconhecimento da derrota chegou à suíte de hotel de Lula. Nenhum discurso anunciou uma transição. Em vez disso, houve rodovias bloqueadas por caminhoneiros leais a ele, apelos dispersos de aliados para que as Forças Armadas interviessem e um longo silêncio do palácio presidencial que esticou os nervos de todo um hemisfério. O tribunal eleitoral agiu rapidamente, emitindo decisões, ordenando a liberação das estradas e lembrando as autoridades de suas obrigações legais. O Ministério da Defesa divulgou uma breve nota que reconheceu o processo sem celebrá-lo.
O silêncio importava porque ecoava um padrão. Bolsonaro passara anos insinuando que as urnas eletrônicas eram fraudadas, uma alegação sem provas que seus próprios indicados jamais comprovaram. Quando as urnas entregaram um resultado de que ele não gostou, as instituições do país passaram no teste de estresse. O presidente da Câmara dos Deputados reconheceu o resultado em poucas horas. Banqueiros, bispos, governadores e generais o aceitaram. No fim, a recusa em reconhecer a derrota virou uma nota no registro, e não um golpe à porta.

O que a Vitória Significa no Plano Interno
Lula herda uma economia sob pressão e uma sociedade em sofrimento. A inflação corroeu os salários, o endividamento das famílias subiu, e milhões de brasileiros que escaparam da pobreza durante os anos de boom voltaram a escorregar rumo à fome. Ele prometeu restaurar programas sociais, elevar o salário mínimo acima da inflação, ampliar a merenda escolar e reconstruir um sistema de saúde desgastado pela pandemia. Também prometeu aos investidores algo bem diferente: uma trajetória fiscal responsável e um conjunto estável de regras para os negócios. Sustentar as duas promessas ao mesmo tempo exigirá uma engenhosidade que, até seus admiradores admitem, nunca foi testada nessa escala.
Ele governará com um Legislativo difícil, uma Câmara onde seus adversários detêm ampla maioria e onde o preço de um único projeto de lei é medido em cargos, emendas e paciência. A reforma tributária, uma tentativa delicada de simplificar um sistema labiríntico, segue pela metade na gaveta. O banco central é independente, e sua luta contra a inflação limitará os gastos que ele prometeu. Em outras palavras, a campanha acabou e a discussão mais difícil começou.
A Amazônia e a Pauta do Clima
Em nenhum lugar o retorno de Lula é observado mais de perto do que na floresta. Sob Bolsonaro, o desmatamento na Amazônia subiu a níveis não vistos em mais de quinze anos, impulsionado pelo garimpo ilegal, pela grilagem de terras e por um governo que tratava a fiscalização ambiental como inimiga ideológica. Lula prometeu emergência nacional para o clima, uma nova ofensiva contra a extração ilegal de madeira e a retomada de sistemas de monitoramento que haviam sido privados de recursos. Noruega e Alemanha sinalizaram em poucos dias que reabririam contribuições ao Fundo Amazônia, um recado claro aos mercados globais de que a mudança de rumo é crível.
No entanto, a floresta não é uma alavanca que ele possa acionar de Brasília. Fazendeiros, madeireiros, pecuaristas e redes criminosas operam numa área maior do que a maioria dos países, e os órgãos encarregados de detê-los foram esvaziados. Reconstruí-los levará anos e custará dinheiro que ele ainda não tem. O mundo o julgará pelas imagens de satélite, pela inclinação de uma curva publicada todos os meses e pelo fato de o Brasil chegar à próxima cúpula global do clima com um plano, e não com uma promessa.
Uma Região se Inclina para a Esquerda
A vitória de Lula completa uma notável mudança política na América Latina. Argentina, Chile, Colômbia, México e agora Brasil são todos governados por líderes de esquerda, cujos governos vão da social-democracia cautelosa a algo consideravelmente mais radical. Juntos, representam um continente que se cansou da exaustão do domínio conservador, de uma desigualdade que nunca cedeu e de uma superpotência distante que muitas vezes parecia desviar o olhar.
O resultado também dá à região um negociador. Lula é uma figura conhecida tanto por presidentes quanto por banqueiros, e seu retorno devolve a Brasília peso nas conversas sobre o clima, nas negociações comerciais e nos esforços para defender as instituições democráticas, questão que se tornou urgente depois que distúrbios se seguiram a várias votações recentes no hemisfério. Vizinhos que se sentiram órfãos durante os anos Bolsonaro agora têm um parceiro com um telefone cheio de contatos e um apetite genuíno pela integração regional.
Os Testes à Frente
O trabalho mais difícil começa com a transição. A equipe de Lula precisará negociar um orçamento com o governo que está de saída, um processo que no Brasil historicamente foi educado e que neste ano será tudo, menos isso. Ele prometeu um ministério com a cara do país que descreveu em seu discurso, expressão que repetiu em quase todas as frases na noite da eleição, e que carregava o peso de uma nação que passou quatro anos ouvindo que alguns de seus cidadãos importavam menos do que outros.
Conclusão
O que quer que a história venha a dizer sobre o quarto mandato de Lula, a campanha em si será lembrada como uma demonstração de algo que a política democrática frequentemente promete e raramente entrega. Um homem foi destruído, na reputação e na liberdade, e então voltou e venceu. A história não é arrumada. Seus críticos jamais perdoarão os escândalos, e os escândalos foram reais. Mas, numa noite de outubro, numa praça em São Paulo, um metalúrgico aposentado agradeceu à multidão por lhe dar uma quarta chance, e a multidão respondeu com um rugido que soava algo entre gratidão e alívio. Perguntaram ao Brasil que tipo de país ele queria ser, e ele respondeu por um fio de cabelo.