O BRICS está ficando maior. Será que ele pode realmente desafiar os EUA?

O mundo está de olho em Nova Délhi. Nos dias 12 e 13 de setembro, os líderes do BRICS se reunirão para sua cúpula anual, e o ar está carregado de expectativa. Esta não é apenas mais uma oportunidade de foto diplomática. É um momento que pode remodelar a forma como o poder é distribuído pelo planeta.
Durante anos, o BRICS foi descartado como uma sigla inteligente com pouca substância por trás. Hoje, ele se encontra em uma encruzilhada. O bloco cresceu, acolhendo novas vozes e novas ambições. A pergunta que paira sobre a cúpula é simples e, ao mesmo tempo, enorme. Será que o BRICS pode realmente desafiar os Estados Unidos e a ordem global que lidera há décadas?
Uma Cúpula em uma Encruzilhada
Cada cúpula conta uma história. A história desta começa com um grupo que se recusa a permanecer no seu lugar. Quando o termo BRIC foi cunhado pela primeira vez, em 2001, ele descrevia uma tendência econômica, não um projeto político. Brasil, Rússia, Índia e China eram simplesmente as estrelas em rápida ascensão do mundo emergente. Poucos imaginavam que um dia se sentariam ao redor de uma mesa para falar sobre reescrever as regras das finanças globais. A África do Sul se juntou em 2010, e a sigla se tornou um clube.
Agora o clube cresceu novamente. Em 2024, Egito, Etiópia, Irã e Emirados Árabes Unidos foram convidados a se juntar, e a Arábia Saudita também recebeu um assento. Isto não é mais uma pequena reunião de um punhado de economias. É uma coalizão que se estende do Atlântico ao Oceano Índico, do Golfo ao Chifre da África. Ela fala em nome da maioria da população do planeta.
Essa é a promessa. E essa também é a pressão. Quando você afirma representar a maior parte da humanidade, o mundo espera resultados.
De Sigla a Aliança
Os membros originais estavam unidos por pouco mais do que uma frustração compartilhada. Eram grandes, ambiciosos e se sentiam excluídos de instituições construídas por outros. O Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional foram moldados em uma era diferente, quando a Europa e os Estados Unidos seguravam a caneta. O BRICS queria um lugar à mesa e, mais tarde, quis a sua própria mesa.
Esse desejo produziu instituições reais. O Novo Banco de Desenvolvimento foi criado para financiar infraestrutura em todo o mundo em desenvolvimento. O Arranjo Contingente de Reservas ofereceu uma rede de segurança financeira fora do sistema ocidental. Esses foram passos modestos, mas sinalizaram intenção. O BRICS não se contentava mais em reclamar. Ele queria construir.
Ainda assim, construir leva tempo. Os empréstimos do banco continuam pequenos em comparação com os gigantes das finanças globais. A rede de segurança raramente foi usada. Para os críticos, isso prova que o grupo é mais discurso do que ação. Para os apoiadores, é uma fundação que só ficará mais forte. Cooperação, porém, não é o mesmo que unidade. O grupo sempre funcionou por consenso, o que significa que qualquer membro pode frear o todo. Esse desenho protege as vozes menores, mas também dificulta ações ousadas. Uma coalizão que só se move quando todos concordam frequentemente se move devagar.
Os Novos Membros e o Peso que Trazem
A expansão muda tudo. Adicionar o Irã traz enormes reservas de energia e uma atitude desafiadora em relação às sanções. Adicionar os Emirados Árabes Unidos traz um dos centros comerciais mais movimentados do planeta e um apetite silencioso por influência. O Egito traz o Canal de Suez e uma ponte estratégica entre continentes. A Etiópia traz uma população em rápido crescimento e uma voz poderosa para a África. A Arábia Saudita, se aderir plenamente, traz o peso do mercado global de petróleo.
Juntas, essas nações representam uma parcela substancial da população, das terras e da energia do mundo. Esse é um dado impressionante. Mas números em uma página não se traduzem automaticamente em poder em uma mesa de negociação. Um grupo maior é também um grupo mais ruidoso. Cada novo membro acrescenta um novo interesse, uma nova rivalidade e uma nova demanda.
Os recém-chegados também mudam o equilíbrio do grupo. Alguns são parceiros próximos da China. Alguns desconfiam do Irã. Alguns dependem das garantias de segurança americanas mesmo enquanto buscam novos amigos. A expansão, em outras palavras, pode ser uma fonte de força e uma fonte de tensão ao mesmo tempo.
O Grande Debate sobre a Desdolarização
Talvez nenhum tema desperte mais entusiasmo do que a ideia de se afastar do dólar americano. Durante décadas, o dólar tem sido a espinha dorsal do comércio e das finanças globais. É a moeda que lubrifica a máquina da economia mundial. Qualquer tentativa séria de contorná-lo equivaleria a um desafio direto à influência americana.
Os líderes do BRICS têm falado abertamente sobre negociar em suas próprias moedas. China e Rússia já transferiram grande parte do seu comércio bilateral para fora do dólar. Índia e Emirados Árabes Unidos exploraram liquidações em rupias e dirhams. O Brasil aventou ideias para uma moeda compartilhada, embora isso permaneça mais aspiração do que plano.
A realidade é mais confusa do que a retórica. O dólar permanece profundamente enraizado. Ele é líquido, confiável e respaldado por mercados profundos e abertos. Substituí-lo exigiria anos de trabalho paciente, e nem todos os membros desejam o mesmo resultado. No entanto, a própria conversa é um sinal. Até mesmo falar sobre um mundo além do dólar corrói o mito de sua permanência.
As Rachaduras Sob a Superfície
É aqui que a história fica complicada. O BRICS não é uma família. É uma reunião de rivais. Índia e China compartilham uma fronteira longa e tensa, e seus soldados entraram em confronto nos últimos anos. Rússia e China se aproximaram, mas seus interesses estão longe de ser idênticos. Irã e Arábia Saudita só recentemente restabeleceram laços diplomáticos após anos de hostilidade.
Depois, há a questão de quem lidera. A China é, de longe, a maior economia do grupo, e muitos suspeitam que ela queira direcionar o BRICS para seus próprios objetivos. A Índia, uma potência em ascensão por direito próprio, resiste a ser tratada como parceira menor. Brasil e África do Sul querem manter o grupo focado no desenvolvimento, não no confronto. Cada membro tem sua própria relação delicada com Washington, e poucos querem queimar pontes das quais possam precisar mais tarde.
Essa é a tensão central da cúpula de Nova Délhi. Uma coalizão de descontentes pode concordar que a ordem atual é injusta. É muito mais difícil concordar sobre o que deve substituí-la. 
O que o BRICS Quer do Mundo
Remova os discursos, e o BRICS tem uma lista de desejos clara. Ele quer um mundo multipolar em que o poder seja compartilhado entre muitos centros, não concentrado em um só. Quer a reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Quer financiamento ao desenvolvimento que não venha acompanhado de lições de moral. Quer a liberdade de escolher seus próprios parceiros e traçar seu próprio caminho.
Essas metas não são radicais por si mesmas. Muitos países fora do BRICS as compartilham. O Sul Global se cansou de ouvir como deve conduzir seus assuntos. Para essas nações, o BRICS é menos um bloco rival e mais um megafone. Ele amplifica um descontentamento amplamente sentido, mas raramente ouvido nas capitais ocidentais.
A energia é outra arena em que o grupo flexiona seus músculos. Entre o petróleo do Golfo, o gás da Rússia e a força industrial da China, o BRICS se assenta sobre alguns dos recursos mais valiosos da Terra. Isso dá ao bloco uma alavancagem real, especialmente enquanto o mundo corre para garantir seu futuro energético.
Será que Pode Realmente Desafiar os EUA?
Então voltamos à pergunta que está no centro de tudo. O BRICS pode desafiar os Estados Unidos? A resposta honesta é que ele já desafia e, ao mesmo tempo, não desafia.
O BRICS desafia os EUA simplesmente por existir. Seu crescimento corrói a suposição de que o mundo tem apenas um centro de gravidade. Seu impulso por moedas locais corrói, lentamente, o monopólio do dólar. Seu tamanho puro lhe dá influência nas negociações de comércio, energia e clima. No palco mundial, o grupo força Washington a dividir os holofotes.
Mas desafiar os EUA não é o mesmo que substituí-los. Os Estados Unidos ainda comandam os mercados de capitais mais profundos, as alianças militares mais fortes e a tecnologia mais avançada. Ainda podem moldar as regras do jogo. O BRICS carece de um comando unificado, de uma ideologia comum e de um tratado vinculante. É uma coalizão de conveniência tanto quanto de convicção.
A verdade é que o BRICS não precisa destronar os EUA para importar. Só precisa oferecer uma alternativa. Em um mundo multipolar, influência não é um trono único a ser conquistado. É uma teia de relações a ser tecida. Cada novo membro, cada novo acordo e cada novo swap cambial acrescenta mais um fio.
O Caminho Adiante
O que devemos observar em Nova Délhi? Olhe além dos apertos de mão. Observe acordos concretos sobre comércio em moedas locais. Observe a chegada de novos membros. Observe declarações conjuntas sobre a reforma das instituições globais. Observe como o grupo lida com suas divergências, porque isso revelará se é um bloco de verdade ou apenas um clube de conversa.
Há também a questão da próxima onda de candidatos. Mais de uma dúzia de países expressaram interesse em aderir. Essa fila é um sinal do apelo do grupo, mas também é um alerta. Se o BRICS crescer rápido demais, corre o risco de se tornar uma multidão solta sem propósito compartilhado. Se crescer devagar demais, corre o risco de perder o impulso que o tornou empolgante.
A cúpula não resolverá o futuro da ordem mundial em dois dias. A história raramente se move tão rápido. Mas ela pode definir uma direção. Se o BRICS conseguir transformar seu tamanho em coordenação, ele se tornará uma força genuína. Se permanecer dividido, continuará sendo uma manchete que desaparece com o ciclo de notícias.
Um Teste, Não uma Coroação
O BRICS está ficando maior, e isso por si só muda a conversa. O grupo é um espelho de um mundo inquieto, ambicioso e que não aceita um roteiro único. Se ele se tornará um verdadeiro contrapeso aos Estados Unidos depende menos do número de membros e mais da disposição deles de agir como um só.
Os líderes em Nova Délhi têm uma escolha. Podem sair com palavras calorosas e sem plano, ou podem sair com algo real. O mundo está observando, e as apostas dificilmente poderiam ser maiores. Para uma coalizão construída sobre a promessa de um futuro mais justo, esta cúpula não é apenas uma reunião. É um teste.